Adolescentes representam 23% dos partos realizados pelo SUS em Pernambuco

Governo Federal instituiu semana de prevenção à gravidez na adolescência. Números em Recife também são considerados altos

Por Cristiano 01/02/2019 - 09:10 hs

Maria Alice, 16 anos, e Emerson, 21, (nomes fictícios) planejavam ter um filho. Ela, cursando a sexta série do ensino fundamental e ele ingressando no ensino médio. O filho era um desejo do dois, mas os planos foram interrompidos quando Emerson perdeu o emprego como atendente em uma rede de lanchonetes. O que eles não esperavam é que Maria Alice já estava grávida de três meses.

Os namorados vivem juntos na casa do avô do rapaz e recebem ajuda dos pais. Agora, esperando o pequeno Davi, a expectativa do rapaz é conseguir um novo emprego para poder sustentar o filho. “Às vezes gente passa numa loja e pensa ‘poxa, queria comprar isso’, mas não posso. Eu me sinto mal por não ter condições e sei da importância de continuar estudando. Sem estudo a gente tem menos chance”, pontua Emerson. Mas, apesar das dificuldades, os dois estão felizes à espera do primeiro filho. “A gente já morava junto e tinha essa curiosidade de saber como é ser pai, de ter essa responsabilidade. Agora estamos bem felizes e ansiosos esperando por ele”, conta a jovem, que está grávida de sete meses e está fazendo o pré-natal de alto risco no Hospital da Mulher do Recife (HMR).

Maria Alice faz parte de uma estatística alta no Estado. Em Pernambuco, 23% dos partos realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) são em adolescentes com idade entre 10 e 19 anos. Dos 103 mil realizados em 2017, por exemplo, 24,8 mil foram de gestações precoces. Para chamar atenção sobre o tema e reduzir índices de gravidez entre o público jovem, o Ministério da Saúde (MS) instituiu este ano a Semana Nacional de Prevenção à Gravidez na Adolescência, que será celebrada neste dia 1º de fevereiro.

Segundo a médica e gerente de Atenção à Saúde da Mulher da Secretaria Estadual de Saúde (SES), Letícia Katz, os dados são resultado do início precoce da vida sexual, sem que haja acompanhamento e debate sobre o tema. “Essas atividades sexuais precoces e desprotegidas podem desencadear uma gravidez não planejada ou não intencional, além de infecções sexualmente transmissíveis. A adolescência é uma fase de descobertas e conquistas para os jovens, que deveriam estar vivenciando outras experiências de vida que não a maternidade/paternidade”, registra.

Os índices alarmantes não se restringem a Pernambuco. De acordo com o Ministério da Saúde, em 2015, o Nordeste foi a região com maior prevalência de gravidez na adolescência, representando 32% dos mais de 540 mil nascidos vivos. Números altos que carregam uma série de preocupações. “Neste casos, são comuns alguns agravamentos como a pré-eclâmpsia e a eclâmpsia, relacionadas à hipertensão; parto prematuro; anemia e crianças abaixo do peso. Chances de óbitos da mãe e do bebê também são maiores”, esclarece a diretora do Hospital da Mulher, Isabela Coutinho.

Além de possíveis complicações de saúde, o lado psicossocial também chama atenção dos profissionais. “O índice de evasão escolar entre as jovens que engravidam é muito grande. Elas saem da escola ela com medo de julgamento e por vergonha. Isso afeta diretamente as perspectivas de futuro e vida social”, registra a coordenadora de psicologia do HMR, Eduarda Pontual. O acompanhamento psicológico é ofertado para as gestantes que realizam o pré-natal na unidade.

Grávida de seis meses, Juliana Silva (nome fictício) não planejava ser mãe aos 16 anos. Ela e o namorado, de 18 anos, estão juntos há um ano e meio. A espera por Valentina, nome escolhido para a bebê, mudou um pouco os planos da jovem, que estava terminando o segundo ano do ensino médio quando descobriu a gravidez.

Nos primeiros meses, a insegurança e o susto trouxeram complicações à gestação, fazendo com que adolescente deixasse a escola no final do ano letivo. “Passei três meses sem conseguir comer. Tudo o que comia, colocava para fora. Acabei perdendo 16 quilos e não tive condições de ir para a escola. Se eu perdesse mais peso, poderia perder o bebê ou até mesmo morrer. Algumas vezes cheguei a pensar que tinha perdido minha filha”, conta. Juliana faz parte do pré-natal de alto risco do HMR e faz acompanhamento psicológico na unidade.

Um das medidas adotadas pela SES para evitar a reincidência de uma gravidez precoce está sendo o investimento no DIU, método contraceptivo, além das campanhas contínuas para o uso de preservativos. “É um método sem prejuízos e que está sendo cada vez mais utilizado nas adolescentes. Tanto em quem está começando a vida sexual, quanto nas que já tiveram o primeiro bebê. Quando a jovem está para ter o bebê, conversamos com ela e, caso a proposta seja aceita, colocamos o DIU após o parto. Mas, sempre esclarecendo que a proteção deve ser dupla, acompanhada da camisinha”, pontua Letícia Katz.

IST

As dificuldades se tornam ainda maiores quando somado à gravidez, vem o resultado positivo para IST. A nomenclatura anterior, Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST), foi trocada para facilitar o entendimento da população, já que nem sempre a contaminação apresenta sintomas de doenças. De acordo com o MS, a transmissão acontece por contato sexual, seja oral, vaginal ou anal, sem a proteção do preservativo, com uma pessoa que esteja infectada. Nas grávidas, o cuidado com IST deve ser redobrado, já que há possibilidade de transmissão para o bebê, seja durante a gestação, no parto ou durante a amamentação.

Segundo Isabela Coutinho, a descoberta da infecção na início da gravidez é determinante no sucesso do tratamento. “Quando a doença está ativa durante a gestação, isso pode repercutir na saúde dela e do bebê, por isso a importância do pré-natal desde o início da gravidez”, diz. Entre as doenças, segundo a médica, a sífilis é uma das doenças mais recorrentes. “Ela pode ser passada para o bebê e trazer complicações graves. Temos visto um aumento muito grande de casos, as pessoas estão cada vez mais descuidadas”, acrescenta.

Principal ferramenta de prevenção contra gravidez e infecções sexualmente transmissíveis, os preservativos masculinos e femininos estão disponíveis nas unidades públicas de saúde para toda a população. As camisinhas são gratuitas e não há limite de exemplares por pessoa. Além disso, o Ministério da Saúde também distribui sachês de gel lubrificante.